Empresa quer cortar plano de saúde de aposentados e impõe longas jornadas em Araucária (PR)
Na Vale, eleita recentemente a pior empresa do mundo em votação
internacional patrocinada por duas ONG’s, as peraltices vão além do
desrespeito ao meio ambiente – motivação maior do indigesto título
recebido.
Os direitos dos trabalhadores, incluindo aí a organização sindical, vêm
sendo acintosamente desrespeitados na fábrica da Vale Fertilizantes,
sediada em Araucária (PR).
A falta de negociação e de diálogo e a pretensão da empresa de impor
suas decisões quanto a salário e condições de trabalho aos funcionários
geraram um impasse cujo próximo episódio vai acontecer na sede do
Ministério Público do Paraná na próxima sexta-feira, dia 3.
A audiência vai ocorrer no MP, e não na Justiça do Trabalho, porque foi
lá que, em 2001, a empresa firmou o compromisso de manter um número de
trabalhadores na área de produção que previsse a chamada reserva técnica
– grupo que poderia substituir ausentes a qualquer momento, sem a
necessidade de um operário ter de dobrar a jornada de trabalho num mesmo
dia, assumindo o turno de outro que faltou.
Como os trabalhadores da área são limitados a 185 para cobrir cinco
turnos, a inesperada e imposta necessidade de dobrar o turno é uma
constante, informa Paulo Roberto Fier, da direção do
Sindiquimica-PR/CUT.
Pela inação da empresa, a tendência é que o cenário piore. Nos dois
últimos anos, desde que a Vale comprou a antiga Fosfértil e ingressou no
ramo de fertilizantes químicos, não há investimento na formação de
novos quadros da área operacional, denuncia o sindicato. “São
necessários cinco anos para formar um bom operador. Como não está sendo
feito nada nessa área, vai chegar o momento em que não haverá gente para
trabalhar”, comenta Fier. “E, enquanto isso, os que aqui estamos vamos
adoecendo, sendo explorados”, completa.
Plano de saúde
– Apesar da complexidade e
insalubridade do serviço – lidar com reatores cuja temperatura varia de
200 graus negativos a 1,2 mil graus positivos, ou ficar exposto ao
barulho constante na casa de 100 decibéis, equivalente a uma motoserra
em funcionamento, por exemplo –, a empresa insiste em retirar o plano de
saúde dos aposentados, desrespeitando prática existente desde a criação
daquela fábrica, há 30 anos.
Como os trabalhadores da empresa – 450, no total – se recusam a aceitar
a proposta, a empresa decidiu unilateralmente garantir apenas o que
prevê a CLT, ou seja, suspendeu os planos privados para todos.
“Eles querem renegociar um preço mais barato com a operadora, e para
isso estão seguindo a recomendação de excluir os atuais e futuros
aposentados”, diz o diretor do sindicato.
Entre os trabalhadores da linha de produção, os males auditivos chegam a
25% dos trabalhadores, segundo as CAT’s (Comunicação de Acidente de
Trabalho), informa o Sindiquímica-PR/CUT. No período compreendido nos
dois últimos anos em que a empresa mudou de proprietário, quatro desses
funcionários foram aposentados por invalidez.
A prática despótica de lidar com seus trabalhadores, que já notabilizou
a Vale por episódios dignos do livro dos recordes, como a greve de mais
de um ano enfrentada no Canadá a partir de março de 2009, registrou em
Araucária a façanha de conseguir a assinatura do acordo coletivo de 2010
apenas no mês de março do ano seguinte, com parte significativa da
assembleia formada por trabalhadores coagidos pela empresa, segundo o
sindicato.
A CUT Nacional vai enviar carta à direção da empresa e também ao BNDES,
cobrando que a empresa e um de seus maiores financiadores pressionem a
direção da unidade no Paraná para abrir negociações e a interromper
imediatamente as práticas antissindicais, como a proibição de dirigentes
de dialogar com os trabalhadores.
A empresa distribuiu nota oficial para contrapor à versão do sindicato.
Nela, nada se fala sobre o plano de saúde e a falta de trabalhadores no
setor operacional.
Leia: “A Vale Fertilizantes informa que continua empenhada em fechar o
Acordo Coletivo de Trabalho 2011/ 2012 do Complexo Industrial de
Araucária.
A negociação iniciou em outubro e, desde então, houve três reuniões com
avanços significativos na proposta inicial. A composição final
apresentada pela Vale Fertilizantes prevê a manutenção de todas as
cláusulas anteriores para os empregados atuais, e um reajuste salarial
linear de 9% para todos os empregados, sem teto. Além disso, foram
incorporadas diversas melhorias como, por exemplo, implantação do cartão
alimentação no valor de R$130,00 mensais, também para todos os
empregados, sem exceção, e auxílio creche para filhos de empregadas até 6
anos.
A proposta da Vale Fertilizantes para celebração do acordo coletivo de
trabalho 2011 / 2012 foi aprovada por todos os demais sindicatos, em
todas as unidades da empresa.”
Fonte: CUT